From Category: leituras

domingo, 2 de abril de 2023

 


Esse livro agora ocupa o centro do meu coração. “É preciso crer, é preciso desesperadamente crer.”

Um livro que dança com as memórias, que planta histórias dentro da gente e nos faz conhecer e reviver tanta coisa, ouvir tantas vozes. E que vozes! Faz a gente rir e depois chorar, faz a gente cantarolar belas canções pensando na vida. Esse livro tem uma coisa muito bonita: ele faz a gente enxergar e escutar o outro.

“Becos da memória” foi escrito na década de 80, mas só foi publicado em 2006. O que mostra a imensa dificuldade de pessoas negras e pobres circularem em certos espaços. Imagina uma obra dessa na gaveta por tanto tempo! Imagina o tanto de outras obras incríveis criadas por pessoas negras não ficaram (e ainda ficam) na gaveta. Ao longo dessas quase 200 páginas vamos caminhar pelas vielas da favela, vamos visitar alguns barracos e conhecer alguns moradores e suas histórias. Tudo é realidade e tudo é ficção.


Conceição Evaristo escreve com uma sensibilidade e uma força poética que enche o coração com uma nova energia, uma escultora das palavras, é impossível desviar os olhos. Ela cria retratos tão bonitos, precisos e preciosos. Era isso uma das coisas que pensava enquanto carregava esse livro pra lá e pra cá: que preciosidade!

O desfavelamento acontece enquanto os moradores da favela vivem suas vidas cheias de miséria, de dor, de fome e angústias, mas também de pequenos prazeres, de sorrisos, de amor. Essas pessoas, essas histórias, terão de partir dali. Pra onde ir? O que fazer? O que será de nossas vidas? A vida não pode ser só isso, não, Deus está do nosso lado, eles pensam. “É preciso crer, é preciso desesperadamente crer.”


A memória tem um lugar lindo e forte nessa narrativa: os personagens relembram, contam histórias de seus antepassados, revisitam suas memórias novas e antigas. E a pequena Maria-Nova está ali, muito atenta, prestando atenção em tudo e em todos. Ela absorve a vida de um jeito único, e ela escreve.

Escrever como forma de resgatar e revisitar memórias é o que a Conceição Evaristo chama de escrevivências. Escrevivência é sobre escrever, viver, se ver, é sobre mulheres negras contando suas histórias, resgatando suas memórias, aumentando suas vozes, denunciando as violências sofridas.

Escrevivência é sobre incomodar.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

 Oi, migos

Hoje vim compartilhar o que pretendo ler ao longo do mês de fevereiro. Esse mês tem carnaval, e sempre aproveito esse feriadão para ler MUITO <3 tô animada!

Também comentei um pouco sobre essas leituras no último vlog, vem conferir. 


Esse mês temos nossa leitura conjunta de A cidade solitária, um livro incrível da Olivia Laing que já está sendo fantástica a releitura. Na próxima segunda-feira (13) teremos a nossa primeira live para falar de arte e solidão, vai começar 20h lá no meu instagram. 

Esse livro é um livro de não ficção, um livro de ensaios em que a Olivia conta sua experiência pessoal com a solidão e cruza esses relatos com uma incrível pesquisa sobre arte, sobre a vida dos artistas e como a solidão impactou suas vivências e suas criações. É um livro dolorido, mas que também nos abraça forte, uma leitura inesquecível. Vem pro nosso grupinho conversar mais sobre ele (e vem participar das lives também). 

Também estou DOIDA pra ler Trânsito, da Rachel Cusk, uma autora que me ganhou muitíssimo com uma narrativa pautada no cotidiano, nas pequenas-grandes coisas, nos sentimentos e pensamentos que nos cercam. Esboço é um livro sobre a vida, um livro com um forte movimento pra dentro, em direção ao ser, ao estar. Um livro cheio de silêncios. Trânsito é a continuação, o livro 2 dessa trilogia cheia de cotidianos. Estou com saudade da escrita dela e de tudo que ela me proporcionou no primeiro livro.

Em fevereiro finalmente lerei o Manifesto do Partido Comunista. Estou fazendo parte de um clube de leitura chamado Filosofia Vermelha, e essa é a leitura desse mês. Já comecei a ler e estou impactada com o quanto é bom! Na verdade, não é só bom como é super importante. No nosso atual cenário político e cultural, ouvimos muito falar de comunismo, inclusive virou quase um xingamento na boca de alguns: "seu comunista!". E acho importantíssimo conhecermos essas deias por nós mesmos ao invés de repetir o que os outros falam. E olha, ler o Manifesto tem sido uma experiência de abrir os olhos, de mais clareza e reflexão sobre nossa sociedade e como ela funciona. 


Também pretendo ler Viagem ao redor da garrafa, outro livro da Olivia Laing simplesmente porque estou totalmente viciada nessa mulher. Nesse livro a autora vai explorar a literatura e como o alcóol impactou a vida de alguns escritores e como isso impactou a própria literatura. Já comecei a ler também e é outro livro apaixonante, espero conseguir terminá-lo em breve. 

Cleopatra and Frankenstein é um livro me pegou pela capa e pelo título. Adoro quanto acontece isso, e espero adorar o conteúdo do livro também. Nesse livro, uma mulher perdida em NY, sem dinheiro e sem ninguém, conhece um homem mais velho que lhe oferece uma vida cheia de arte e beleza. No entanto tem algo estranho no ritmo desse relacionamento que afetará a vida dos dois dolorosamente. Vi esse livro sendo recomendado para leitores de Sally Rooney, e como amo a Sally e tudo o que ela escreve, fiquei com a sensação de que vou gostar desse também. 

Espero que tenham gostado! Me conta se já leu ou se pretende ler algum desses livros e não esqueça de conferir o último vlog que está disponível no canal!

Beijos, 

Rita Z.

sábado, 28 de janeiro de 2023

 



Michelle Zauner me pegou muito com sua escrita que evoca cheiros, pequenos gestos e pequenos instantes ao lado de quem se ama com toda a força do ser. Em 2014, a autora perdeu a mãe para o câncer, e nesse livro nos conta sobre sua relação com a mãe, sobre sua dor, seu luto e sua trajetória de vida.

Sua elegante mãe coreana não conseguia expressar muito bem seu amor através de palavras, mas era através da comida que comunicava esse amor para a filha. Quando a mãe se vai, Michelle se perde e é através da culinária coreana que ela vai tentar entender quem ela é sem a mãe e resgatar a companhia e a essência dessa mulher que tanto amava.

Minha família não é coreana e não estou familiarizada com quase nada dessa cultura, muito menos a culinária. Ainda assim, a conexão foi fortíssima, um rio de lágrimas, medos, amores e sabores percorreram as minhas entranhas.

Ler é rememorar. Ler é compreender um pouco melhor quem somos, é olhar para os outros e para o mundo ao redor com novos olhares. Esse livro me ofereceu um universo de percepções e modificou algo grande dentro do meu peito.

Por isso, e outros motivos, eis um favorito.

A Thais Campolina ❤️mediadora do clube de leitura Cidade Solitária, promoverá um encontro de discussão sobre esse livro no dia 31/01. Quem já leu esse livro, bora participar!

segunda-feira, 13 de junho de 2022

 


Uma jornada no espaço através da poesia, uma jornada única, potente, permeada por um vazio e uma solidão de tirar o fôlego. Para além do vazio que permeia essas páginas, há uma tentativa insistente de se agarrar à vida, um grito quase sufocado de : quero existir :

Um texto belíssimo, com um ritmo cadenciado de uma estrela em ascensão, uma estética marcante, cheia de possibilidades. A autora nos dá combustível para voarmos com nossos próprios foguetes, nos incentiva a alcançar novos territórios imaginários, nos possibilita uma leitura de outras vidas, outros caminhos.

Um livro sobre existir, versos que enchem os olhos e o coração. É também, essencialmente, um livro sobre estar sozinho, isolado - mesmo com companhias. Desde 2020, tivemos uma experiência com o isolamento - presos dentro de (in)cômodos. Não foi uma experiência boa pra ninguém - o ano mais triste de nossas vidas e por isso talvez a conexão com esses versos seja tão profunda, tão sincera.

84 páginas de uma jornada brilhante, solitária e existencial.


Tem livro que é para sentir no fundo do peito, para deixar arrepiar, deixar incomodar, deixar doer. Tem livro que não é para caber, que não é para explicar. 

A arte tem dessas, né? 

Esse pequeno livro da Flávia Rocha, que saiu pela Editora Nós, é um dos que mais mexeu comigo nesses últimos tempos. Uma potência enorme, abriu umas portinhas aqui dentro de corredores desconhecidos. Eu amei.




Tem vlogs, newsletter e vídeos sobre arte, podcast exclusivo sobre leituras e coisas da vida, tem oficinas de arte todo mês, encontros para bater papo com artistas e escritores incríveis e muito mais!
Além de todo o conteúdo exclusivo, com esse projeto você também apoia uma artista visual e criadora de conteúdo independente.

Muuuito obrigada a todos que topam fazer parte desse projeto!


quarta-feira, 8 de junho de 2022

 


Oi, amigos do blog!

Tá rolando uma movimentação no twitter (e em outros cantos da internet) para que as pessoas voltem com seus blogs. Nem preciso dizer que sou totalmente a favor dessa ideia, né?! Por favor, volte ou crie um blog e vamos ser felizes novamente (hahaha, mas é sério).

Esse blog foi atualizado pela última vez em abril - até que não faz tanto tempo assim - mas tô querendo voltar com mais frequência, pra valer. A verdade é que sinto falta e penso constantemente nesse espaço. E nunca nunca deixei de acompanhar os blogs que amo <3 

Então deixo aqui meu apelo: vamos blogar! 

Se você tem um blog ou quer deixar uma dica de um blog que você adora: se joga aqui nos comentários!

Depois vou fazer um post lindão só indicando os blogs incríveis.


Hoje venho compartilhar com vocês o que pretendo ler ao longo desse mês de Junho, estou - como sempre - muito animada com as leituras e achei a listinha desse mês particularmente maravilhosa. 

Quero fazer um post mais com imagens, até porque se for escrever muito vou acabar deixando pra depois e esse post nunca vai sair. Quero voltar para o blog em um formato mais orgânico, sem cobrança de ter que entregar um conteúdo super-mega-hiper elaborado. Quero aparecer, dar as caras e compartilhar umas coisas legais pelo caminho. Vem comigo?

Vale comentar que dessa listinha já li Neuromancer e Os trabalhos e as noites - estou completamente maluca e obcecada nesses dois livros. A Alejandra Pizarnik já é um os grandes amores da minha vida, FATO. 








Espero que gostem! Me contem das suas leituras também ;)
Beijos,
Rita Z.


segunda-feira, 19 de julho de 2021

Como superar uma leitura que habitou lugares tão profundos? Nem sabia que dava pra chegar lá, tão dentro, um lugar novo e desconhecido pra mim.

Sabe quando você lê um livro que mexe tanto com coisas lá dentro que mesmo quando finaliza a leitura tem a nítida sensação de que não finalizou? A todo momento me pego pensando “vou ler Mrs. Dalloway”, só que já terminei a leitura há dias. Confesso que gosto dessa sensação do interminável, me soa como um fio longo de vida que sigo puxando.

Peguei pra reler algumas passagens, como quem não quer nada, estava impossibilitada de tirar as mãos desse livro, de mantê-lo distante. Não guardei de volta na prateleira, ele ficou na mesa, do meu lado o dia inteiro. Percebi que nunca vou parar de ler e reler esse livro, porque em suas páginas temos a vida em toda sua complexidade dolorosa, solitária e ao mesmo tempo é recheado de uma beleza incompreensível.

Mrs. Dalloway é um livro que se passa em um dia. Uma obra que contempla uma vida em apenas um dia. Clarissa vai dar uma festa e sai para comprar as flores. Como pode uma história tão simples ser algo tão imenso e profundo?

Fiquei pensando nos dias. Vamos vivendo um dia após o outro, nem sabemos lidar muito bem com essa passagem, uns precisam de rotina rígida, outros querem novidades diárias - na maioria das vezes nunca estamos satisfeitos com o caminhar dos dias. No fundo temos medo desse apressado caminhar, temos medo do envelhecer, do deixar de ser. Só que nada podemos fazer para evitar a noite. Todo dia o relógio bate seu tic toc, as nuvens passeiam, milhares de pensamentos e sentimentos nos habitam, nos transbordam.

O que sentimos ao longo de um dia realmente cabe em um livro (ou vários) são tantos sentimentos e pensamentos, um emaranhado enorme de vivências que experienciamos todas as vezes que abrimos os olhos. Cada pequeno ser está vivendo isso tudo de uma forma completamente diferente, acumulando experiências diferentes, captando e formulando outras e novas ideias.

Fiquei completamente apaixonada com a forma como os personagens vivenciaram o mesmo dia. Cada um tão diferente do outro. E lá estava eu, passeando por seus pensamentos, tendo um flash, um vislumbre de seus sentimentos, tudo ali em minhas mãos. Estava experienciando as experiências dos personagens através de seus pensamentos que foram escritos e criados através de outras experiências e pensamentos vindos bem de dentro da Virgínia Woolf.

Fiquei com vontade de escrever, com vontade de ler, de prestar mais atenção aos meus sentimentos e pensamentos ao longo do dia pra ver o que cabe em mim, o que me preenche. Fiquei assustada com o abismo diário que cerca nossas existências, fiquei ainda mais assustada ao perceber que quase sempre lidamos bem com isso, eventualmente vamos aprendendo a lidar com as lacunas vazias.

Essa leitura me deixou com vontade de caminhar pela cidade, de ver coisas e pessoas, me deixou com uma particular sensação de vida pulsante que não cabe no peito. É necessário mais.


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